Bilinguismo afetivo
Não, não vou falar sobre “linguagens de amor”, pra mim isso é balela.
Volta e meia me pego com um certo estranhamento com a minha relação com a língua inglesa. Eu sou fluente e sou fluente há muito tempo. Em meio ao caos financeiro dos anos 90, meus pais fizeram o esforço de me colocar no curso de inglês desde bem pequena, logo depois da minha alfabetização. E eu aprendi rápido. Sempre fui ligada em música e logo percebi que o inglês era o idioma de muitas delas, dominar aquela língua era um passaporte pra toda uma outra dimensão de experiência simbólica. Sempre tive o ouvido afinado pra isso, absorvia expressões e fixava a estrutura também com filmes e, a partir de certo ponto, livros. Por essa razão, a língua inglesa é tão entranhada na minha subjetividade quanto o português.
Pensei nisso esses dias, quando vi uma fala do Wagner Moura numa mesa redonda de atores, sobre como o inglês é um idioma que ele aprendeu depois de adulto, portanto não tem muitas associações afetivas que derivem das palavras, o que torna o processo de atuar em inglês mais complexo. O Fernando Meirelles falou coisa parecida, ao tecer uma rede associativa a partir da diferença entre falar “mango tree” e “mangueira”. Pra mim, é completamente diferente. Sem dúvida, o português é minha língua-mãe e eu sou enraizada nela. Mas eu tenho boa parte do meu tronco estruturado no inglês, não tem como escapar disso.
O estranhamento vem, em parte, porque não há qualquer motivo pra isso além do fato de que o inglês é a língua dominante do mundo desde a segunda metade do século XX. Não tenho ascendência ou qualquer vínculo familiar com países de língua inglesa. O fato de eu dominar o idioma se dá pela decisão consciente dos meus pais de me instrumentalizarem para um mundo onde o inglês permite um trânsito amplo e um acesso a coisas que o português, exclusivamente, não dá. Ou seja, aprender inglês foi uma questão de, sabiamente, se adaptar à ordem mundial do nosso tempo.
Talvez isso explique, parcialmente, uma ligação visceral que tenho com toda a história ancestral das ilhas britânicas, aquela mitologia, aquelas paisagens. Sem dúvida, algo se transmite pela língua, e apropriar-se de uma língua também é um convite a se deixar permear pelo que ela carrega. Eu me deixei.
Mas também tenho sentido uma pequena revolta, quase uma pinimba disso tudo. Afinal de contas, inglês é a língua dos colonizadores, dos maiores traficantes de escravizados, dos imperialistas. Isso não é pouca merda. Eu consigo negociar com esse fato só até certo ponto. Porque eu sinto claramente que isso interfere no meu processo de constituição como uma mulher brasileira e latinoamericana. Branca, sardenta e latina.
Em 2019, quando eu estava estudando na Universidade de Edimburgo, vivendo o time of my life, absolutamente apaixonada pela cidade, pelo frio, pelas aulas que fazia, enfim, tive um episódio bem simbólico e incômodo. Eu estava na aula de História da Música Popular, apenas o curso mais espetacular que fiz na vida, e a professora, uma canadense radicada na Escócia, criticava o gênero de “world music”, todo olhar eurocêntrico que caracteriza sons de outros países como “étnicos” ou “exóticos”, para um auditório cheio de peles alvas, muitos loiros e alguns ruivos (myself included). Em outros momentos do curso, ela também deu aulas maravilhosas sobre como o rap e o hip hop permearam as comunidades marginalizadas para além da afro-americana, e se tornaram um instrumento de afirmação cultural para povos indígenas de diversas regiões da America do Norte. Até aí, tudo bem, estamos de acordo. Lá pelas tantas, ela chega na Bossa Nova. Fala da sofisticação do som, da mistura do samba com jazz, da especificidade dos ritmos e das melodias, e bota pra tocar uma versão bilíngue de, você adivinhou, “Garota de Ipanema”. Nessa versão, a letra é cantada em português primeiro, e depois em inglês. Sorrio pelo canto da boca, bem quieta na minha, num discreto ufanismo. Quando a música termina, ela comenta que a primeira parte é, não vou me lembrar a palavra exata que ela usou, mas foi algo como “misteriosa” ou “inacessível”, e aí quando começa o verso em inglês “a coisa flui”. Rapaz, aquilo não me desceu, não. Como boa louca de palestra, levantei o meu sardento bracinho e pedi a palavra. Também não lembro exatamente o que eu falei, mas foi algo no tom de “você não percebe, porque a regra do mundo é falar inglês, mas quando diz que o trecho em português é ‘misterioso’, está incorrendo no mesmo mal eurocêntrico que você acabou de criticar. O mundo todo precisa partilhar do seu idioma pra poder ocupar espaços mínimos, e eu sou um exemplo disso porque aprendi inglês e agora posso estar aqui, mas você pode se manter alheia às palavras dessa música porque logo vem a tradução e a música se dobra ao mundo ao qual você pertence”. Também falei que, até do ponto de vista do som, a letra em português é infinitamente superior, porque tem a cadência dos fonemas, pausas, quase uma percussão das próprias palavras dos versos que é completamente perdida na tradução. Após um silêncio sepulcral dos meus colegas, todos alunos de primeiro ano meio chocados com o meu disparate (além de estrangeira, eu também já estava com 30 anos na cara, risos), ela disse “You are absolutely correct. I appreciate that”. “No hard feelings”, isso eu lembro bem que falei. Ora, apaporra.
Recentemente, fui ver “Valor sentimental”. Tirando o fato de que é um filmaço, do nível que há tempos eu não via, que honra com louvor as tantas escolas de cinema que se debruçaram sobre as miudezas do que é ser humano, uma das coisas que eu mais gostei da experiência foi ouvir norueguês. Vejo muito filme e consumo muito conteúdo em inglês, um tanto, mas menos, em francês, mas raramente escuto outras línguas. A sonoridade do norueguês é bem parecida com a do sueco, e isso me desperta muitas outras associações por causa dos anos na adolescência em que passei vendo filmes do Bergman. Em “Valor sentimental”, a questão do idioma como portador de afetos e memórias está posta, levantada pela personagem de Elle Fanning, que questiona, com imensa pertinência, se é correto produzir uma obra tão autoral numa língua que não é a sua língua materna.
Sobre aquilo que mencionei um pouco acima, de o inglês interferir em como me entendo como brasileira e latinoamericana, tenho encontrado um caminho alternativo que creio estar me ajudando. Há uns bons 8 livros, transito pela América Latina contemporânea, por meio de obras de autoras mulheres. São livros traduzidos para o português, mas me oferecem uma ponte para o que está ao meu redor e que, mesmo sem desconsiderar ou desmerecer a parte anglófona do meu tronco, me permitem ramificar na direção de experiências geográfica e culturalmente mais próximas. Recomendo fortemente Monica Ojeda, Brenda Navarro, Mariana Enriquez, Pilar Quintana, Camila Sosa Villada, Ariana Harwicz e agora estou conhecendo Giovanna Rivero.
No mais, sigo nesse terreno esquizóide, ora apreciando profundamente a língua inglesa, na qual “inteiro” (whole) e “buraco” (hole) soam exatamente igual e só se diferem por uma letra, ora dando graças a Deus por ter como mãe uma língua na qual existe a palavra “pirraça”.




Hablou muito para a professora. Quer dizer, speakou.
Excelente ver essas perspectivas!