O jeito certo de sofrer
Espera-se compostura até no desespero
Estou há várias semanas lendo o calhamaço “Nossa parte de noite”, da argentina Mariana Enriquez. A obra costura a história da ditadura argentina com uma temática sobrenatural. Tem uma estrutura panorâmica do fio narrativo central, uma alternância de pontos de vista e de cronologias que funciona muito bem para manter o ar de mistério e entregar as informações com bom timing e impacto. É um livro de terror que se serve de terrores reais. Não é o único do gênero, mas o faz de maneira bastante singular, envolvente e assustadora. Na verdade, não é um livro que assusta, é um livro que atormenta.
O carisma dos personagens se alinha à dureza das cenas, tornando a leitura um processo lento, pelo menos para mim. Ainda não quero me despedir de Gaspar, mas ao mesmo tempo preciso terminar esse livro e partir para algo mais leve (se é que vou conseguir, porque só leio desgraceira).
Um determinado trecho do livro me assombra desde que o li. É uma passagem na qual Gaspar e seus amigos, Adela, Vicky e Pablo, acompanham pela televisão o caso real de Omayra Sanchez.
Omayra foi uma menina colombiana de 13 anos que ficou soterrada pelo deslizamento de terra de um vulcão em 1985. A televisão transmitiu ao vivo as tentativas fracassadas de resgatá-la, e Mariana Enriquez coloca seus personagens como testemunhas desse acontecimento. A autora é minuciosa ao descrever o horror do processo de morte de Omayra. As mãos inchadas e acinzentadas. Os olhos enegrecidos e o olhar perdido. A menina cantou para a equipe de resgate e se manteve calma, serena, o que contribuiu para a comoção nacional representada nos seus personagens, capturados pela devastação causada pela imagem de Omayra. Ela dissera que seus pés estavam sob a lama, apoiados na cabeça de sua tia. As horas e horas de desespero e de decomposição em vida. Um horror inimaginável, que atormenta os personagens, e que é nível de abominação dos meus próprios pesadelos infantis. Mariana Enriquez é sagaz em demonstrar como cada personagem é tragado por determinados aspectos da história. Para uma, são os pés sobre a cabeça da tia soterrada. Para outra, os olhos. Ou as mãos acinzentadas. A impressão do horror em nós é sempre meio fragmentada, uma vez que a totalidade é simplesmente insuportável.
Eu não conhecia esse caso. Ao pesquisar, vi que a menina se tornou o símbolo do despreparo do país para catástrofes naturais, e que sua morte foi amplamente sentida pela população, sobretudo em função da dignidade com que ela aguardou a morte chegar. Dignidade. Guardem essa palavra.
Não vou colocar imagens de Omayra aqui.
Vê-la me dá vontade de chorar.
Outro caso real de horror, mais recente, é o de Gisèle Pelicot, a mulher que, por décadas, foi dopada pelo marido e estuprada por dezenas de homens. A escolha de Pelicot em abdicar do sigilo do julgamento foi um ato de indiscutível bravura. Sustentar expor seu rosto e sua história para direcionar a vergonha e o repúdio a quem os merece de fato foi nada menos do que heroico.
Mas também me chama a atenção o emprego da palavra dignidade para descrever a conduta de Pelicot durante o julgamento e em suas aparições.
Nem Pelicot nem Omayra urraram de desespero. A dignidade, nesses casos, está como equivalente a calma. Compostura. Me pergunto, sinceramente, se essas figuras teriam a marca que tiveram se expressassem revolta. Fúria. Se Pelicot esbravejasse, fumegando de ódio do homem que violou tão terrivelmente seu corpo. Diriam que ela teve dignidade? Se Omayra, antes da hipotermia a colocar em estado alucinatório, tivesse apontado o dedo para os homens que tentavam resgatá-la e os xingasse, essa não seria uma resposta adequada ao horror de estar se decompondo viva?
Existe um jeito certo de sofrer, sobretudo quando se é mulher, e esse jeito é o da contenção, da compostura, do choro discreto. Intensidade, nessas horas, é visto como destempero. Desregulação. Loucura. Histeria.
Gritar, falar alto, falar enfaticamente em situações de desespero é visto como sofrer errado. Pra pedir ajuda, socorro, uma boia salva-vidas, que seja, tem que ser com delicadeza. Tem que dizer por favor.
Parte do meu horror interno que ressoa em Omayra é que a contenção diante do trauma é vista com bons olhos. Gisèle Pelicot, com seu cabelo bob perfeito, seu sorriso discreto, é bem quista como heroína porque ela faz o que tem que fazer, mas não faz estardalhaço. E isso de forma alguma é uma crítica a ela, mas uma revolta contra esse pacto não declarado de que a compostura legitima o sofrimento, e a intensidade o descredita.
Há o arquétipo do bom paciente, tal como definido por Talcott Parsons nos anos 1950, cuja principal característica é a aquiescência a um papel passivo e grato pelos cuidados recebidos. Me parece que isso encontra equivalência no sofrimento psíquico, e sobretudo o sofrimento feminino.
Mas eis a questão: o sofrimento é bagunçado. Pessoas sofrendo podem ser imprevisíveis. Podem estourar. E pedir ajuda não é sobre preencher um formulário, às vezes é sobre gritar a plenos pulmões, pra quem puder ouvir.
Uma máxima que eu tenho para mim é a de que externalizar o sofrimento é, basicamente quase sempre, melhor do que internalizar. A externalização é uma aposta no ambiente, no outro. É uma convocação, um voto de esperança, como diria Winnicott.
Longe de querer comparar qualquer experiência pessoal às de Omayra ou Gisèle, eu fui uma pessoa profundamente internalizadora, silenciosa e reclusa em meu sofrimento por boa parte da minha vida, ao menos durante meus anos “formativos”. O custo disso é algo que pago até hoje. Atualmente, pude inverter essa lógica, e admito considerável destempero nas minhas expressões de desespero. Foi assim na privação de sono do puerpério e é assim toda vez que chego no nível de esgotamento da minha energia e paciência. É explosivo. É furioso. É feio, deselegante.
Mas será indigno? Não ter compostura para sinalizar graciosamente que meu cérebro está intoxicado em função de sucessivas noites mal dormidas é um destempero? Pedir socorro tem que vir seguido de um “se não for incômodo”, por algum acaso?
Cito meu exemplo pessoal apenas como ilustração do meu ponto: temos esse guia de boas maneiras que pareia a contenção, a graça e a compostura com uma noção de dignidade, uma ideia do que é “lidar bem” com uma situação desafiadora, dramática, tenebrosa, you name it, em especial para mulheres.
Então vou deixar aqui meus dois centavos no sentido de que não, lidar bem nem sempre é ficar calma, nem sempre é chorar sem borrar a maquiagem, nem sempre é permanecer com os fios de cabelo alinhados em face do horror do mundo, do esgotamento emocional, das infinitas violências que cruzam nosso dia a dia.
Precisamos nos autorizar a dignidade de perder a cabeça diante do que é inaceitável, inominável, insustentável. Há imensa graça na ferocidade.


