Virando estrelinha
A grande ficha que não cai nunca
Há uma dupla de fotografias de quando eu era bebê que retratam meu pai deitado num gramado, cercado por outras crianças (acho que meus irmãos e alguns primos), comigo sobre sua barriga. Em uma das imagens, ele está de olhos abertos e eu estou com uma expressão tranquila. Na outra, ele faz uma expressão específica, olhos fechados, cenho franzido, boca entreaberta, e nessa eu estou chorando, com os braços estendidos, pedindo colo. Conta-se que, desde antes de eu me entender por gente, tenho pavor dessa segunda imagem. Vê-la ao folhear os álbuns de fotografias sempre me levava ao desespero, a um horror inominável diante da imagem de meu pai morto, mesmo ele estando muito vivo e bem ao meu lado. Quando eu estava no final da faculdade de cinema, minha primeira graduação, esse fenômeno da minha história foi um dos disparadores do meu projeto de curta de conclusão. Fui me dando conta de como símbolos, sinais e representações da morte me atravessaram desde muito, muito cedo. Meus pais dizem que eu devia ter pouco mais de dois anos quando comecei a entrar em desespero diante da foto que mencionei. Algum horror inominável, porém nada abstrato, e bastante específico, já se instalara ali. Também não é difícil deduzir, dentro de uma lógica psicanalítica, que alguma fantasia inconsciente tenha associado a expressão de morte no rosto do meu pai a algo que eu pudesse ter feito. Daí não só o desconforto, mas o horror.
Se isso não é um exemplo do bebê sábio de Ferenczi, não sei o que é.
O sonho do bebê sábio se apresentou a Ferenczi pelo relato de um paciente. O termo é autoexplicativo: um bebê que já sabe demais. Muito mais do que é capaz de dar conta e muito cedo. Ferenczi construiu extensa obra acerca dos processos psíquicos do amadurecimento precoce como resposta ao trauma, inclusive utilizando-se da metáfora da fruta bicada, retratada numa belíssima cena da série Sessão de Terapia. A fruta bicada pelo pássaro fica madura antes da hora. No psiquismo, algo do ambiente incide no sujeito, uma ou múltiplas vezes, e não precisa ser uma violência monstruosa necessariamente, e uma das respostas possíveis é a clivagem entre uma parte de si que tudo sente, e outra que tudo pensa. Isso grosso modo.
De umas semanas para cá, meu filho tem se sentido atraído pela sensação de medo. Tem ficado tentado a ver coisas que o assustem. Quer ver vídeos sobre animais venenosos, predadores, dinossauros. No processo de curadoria desses conteúdos, com frequência ouço “mas eu não tenho medo de nada” ou quando digo que tal vídeo é muito assustador, ele diz “não pra mim”. Minha resposta varia entre negativas brincalhonas a queixas diante do fato de que quando ele tem pesadelos, ele se remexe e resmunga durante o sono e quem não dorme sou eu.
Muitas ramificações derivam desse momento. Uma delas é o encontro relativamente frequente com vídeos no Youtube que eu veto, por serem bizarros, psicodélicos, assustadores e mal intencionados. Os protestos são enérgicos, o “não” é inflexível. Quando ele se acalma, explico que no Youtube (que ele só pode ver junto a um adulto, e sem reprodução automática) tem muita coisa legal, mas também tem muita coisa feita por gente malvada que gosta de apavorar crianças. Então não pode ver vídeo curto, não pode ver coisa sem história, não pode ver animação bizarra de bebê feito de gomos de laranja nem de nada saindo da privada. Eu sei que a atração pelo que assusta é natural. Mas vamos com critérios.
Outra derivação tem sido o interesse do meu filho por vídeos que contam a história do planeta, claro, mostrando insetos imensos, dinossauros e afins. Já estou craque em saber que o período carbonífero foi caracterizado por uma abundância de oxigênio na atmosfera que permitiu que os insetos assumissem proporções absurdas. Outro dia, ele indicou que queria ver um vídeo cujo thumbnail era um minhocão, aí a narração percorreu um bocado de eras da terra e ele toda hora repetia “cadê o minhocão, mamãe?” ao que eu respondi “calma, no carbonífero ele aparece”.
Ele se apega aos monstros do passado, se diverte. Já eu me apego à monstruosidade do passado. Ao tamanho inominável do passado. À dimensão inapreensível dos bilhões de anos. E nessas horas, junto ao meu filho, sinto a profunda ambivalência da nossa insignificância e pequenez. O horror e a liberdade que isso traz.
Meu filho também tem aprendido sobre o ciclo da vida, começa a ter contato pedagógico com a noção de finitude, e passa a empregar o termo “morrer” de maneira um pouco mais consciente. Já há algum tempo, a caminho da sua antiga escola, passávamos por um cemitério, e quando ele perguntava o que era aquilo eu explicava que era o lugar para onde iam as pessoas que morriam, para serem enterradas e voltarem para a terra. Nesse sentido, nunca usei a metáfora de “virar estrelinha”, não por nenhuma razão ideológica, apenas me apraz mais essa imagem de retornar para o solo, mesmo que cemitérios sejam, na maior parte das vezes, labirintos de concreto. Mas aí, outro dia, meu filho vira e diz que um coleguinha disse que ele iria morrer. Perguntei por que o colega dissera isso, e se ele ficou assustado. No dia seguinte, esclareci com a professora. Um dos alunos perdera o avô, o tema emergiu e, no contorno dado às aflições, lançou-se mão da ideia de crescer, envelhecer, morrer e “virar estrelinha”. A professora relatou resistência do meu filho à imagem de virar estrelinha, e interpretou como uma resistência dele à ideia de finitude. Expliquei que não, que eu apenas utilizava outra imagem, de voltar para a terra, acho até que já mencionei que a pessoa podia virar uma árvore, enfim. Mas depois pensei que teria simplificado a vida do meu filho se tivesse mandado essa da estrelinha, mesmo.
Meu filho está bem no centro do que eu entendo como idade impressionável. Elementos da realidade são injetados de fantasia e, sem o devido contorno, ganham proporções desestruturantes. E as doses da realidade precisam ser bem calculadas. Pelo menos para quem tem o privilégio de poder fazer isso.
Voltando ao ponto do meu fascínio com 99,9999% do tempo em que nem eu nem ninguém que eu conheça pisou nesse planeta (por sua vez um dado de realidade que acho que nenhum de nós é capaz de processar), estou lendo “Os imortais”, de Paulinny Tort. É espetacular a forma como a autora compõe a ambiência e a dinâmica entre um grupo de neandertais e seu encontro com alguns sapiens. A riqueza mesmo do vocabulário, para descrever paisagens e objetos, me faz constantemente ter que me educar sobre aquilo que está sendo dito, porque é tão fora do nosso registro que me escapa até a imaginação. As agruras da vida nômade, a busca permanente por abrigo e alimento. Períodos de estar à beira da morte, seguido por um oásis de alguns anos de abundância, para depois cair na escassez radical novamente. Os poucos que envelhecem. O nível de risco de absolutamente tudo. E, ainda assim, o elemento humano, os indícios dessa camada que paira sobre tudo e que só nós temos, a simbolização, o abstrato, esse acaso tão inapreensível quanto todo o resto. Como a vida nesse período era um microcosmo da história do planeta: uma sucessão de alternância entre fartura e destruição, de novo, e de novo, e de novo.
A quantidade de eventos de extinção em massa entremeados por milhões e milhões de anos. De novo, a nossa pequenez e insignificância no grande escopo das coisas. O horror e a liberdade nisso.
Nas incursões de Youtube com meu filho, um dia propus de vermos A Família Dinossauro. É maravilhoso, Jim Henson era um gênio mesmo. Como ele sofistica a tendência de antropomorfizarmos o mundo, dá singularidades aos personagens, é um barato. Algo que eu não me dera conta, é que toda a trama de desenrola enquanto o cometa apocalíptico já está em rota de colisão com a Terra, então tudo é uma grande contagem regressiva. Esse elemento de angústia permeia todos os episódios: sabemos que todos eles vão morrer em breve, a maior parte instantaneamente, ou em minutos ou horas.
Essas nuances que vão compondo nosso senso de existência são ao mesmo tempo belas e apavorantes. A consciência de que a finitude transcende nossa própria existência individual, que é um dado para toda a humanidade, mais cedo ou mais tarde. Ferenczi tem outro texto maravilhoso em que discorre sobre o desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios. Essa ideia da realidade enquanto algo que se sente, se experimenta, e não apenas se habita, e que isso se dá gradualmente, por etapas, é uma beleza. E, aos poucos, vão entrando essas outras dimensões, de que a maior parte de tudo que já existiu ou existirá se deu e se dará indiferente à sua própria existência.
Se pareço divagar e filosofar demais a partir de meras sessões de YouTube com meu filho de 4 anos, bem, essa sou eu, uma bebê sábia. Há muitos de nós.
Mas se tem uma ideia que acho legal construir, conforme a capacidade de apreensão do meu filho vá se sofisticando, é que, em vez de “virar estrelinha”, a gente nasce pó de estrelinha. Nisso tem verdade E poesia. Tem dado de realidade E dimensão lúdica. E que a gente vai pra terra depois que morre, também. Tem gente que vira árvore. Tem gente que vira areia e se mistura com o mar. E que na gente tem um pouquinho de tudo que já foi, e que quando a gente se vai, fica um pouquinho da gente pra tudo que fica.


Que tarefa ingrata abordar esse tema com crianças. Me lembrou deste quadrinho: https://www.instagram.com/p/DYzsv2kjhKD/?img_index=1